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A Morte Sem Cabeça


















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O que lhes contarei agora é sobre até onde que a maldade humana pode chegar, que por causa dela perdi três amigos meus; consegui sobreviver mas aquelas cenas não saem de minha mente, lembro de tudo como se fosse ontem, e já faz mais de um ano que tudo aconteceu. Eu e meus amigos sempre fomos tranqüilos, gostávamos de curtir a vida, ver filmes de terror e tudo o mais. Mas, naquele dia, o demônio se apossou de nossa mente e nos levou a cometer uma atrocidade que custou a vida de meus amigos.

Estava eu, Andersom, Eduardo e Fernando, éramos amigos desde a infância e sempre nos reuníamos numa casa velha e abandonada para brincar, a casa tinha iluminação mas não tinha água encanada, havia um poço perto dali. Depois nós nos mudamos, estudamos juntos, crescemos juntos, passamos no vestibular, aproveitamos as férias para visitarmos o local onde morávamos e ver se aquele casebre ainda estava lá; e estava, entramos nela e vimos que nada mudou, estava do mesmo jeito que deixamos, no interior da casa, na sala havia apenas uma mesinha de madeira bem gasta, e um sofá velho, na cozinha havia outra mesa, só que maior e quatro cadeiras, e havia um pequeno corredor que dava para uma outra porta, era a porta dos fundos, sempre trancada, mas ao lado tinha uma janela aberta e sem vidros.

Ao entrarmos na casa sentamos no sofá, e lembrávamos dos tempos de infância, quando brincávamos na casa que era toda feita de madeira, sentimos saudades de nossas brincadeiras de criança, mas, pensamos melhor, aquele era um bom local para namorar, sem ninguém por perto para atrapalhar, logo nosso papo foi só sobre a mulherada, Fernando era o único que tinha namorada, mas logo nossa conversa mudou, falávamos sobre filmes de terror, terrorismos, atrocidades, torturas e mutilaões. Ficamos durante muito tempo conversando dentro da casa. Então Eduardo teve uma idéia, à noite estaríamos na casa para curtírmos um som, achamos uma boa idéia, faríamos uma festa, pegamos nosso carro e fomos pegar o rádio e alguns CDs.

A viagem era longa, Andersom parou para reabastecer o carro, e logo estávamos indo para casa, estava anoitecendo, no caminho vimos um bar e paramos ali para beber um pouco, mas não bebemos pouco e sim, muito, até demais, ficamos todos bêbados, entramos no carro e fomos em direção à casa, já estava noite, até aí tudo estava correndo bem apesar de nossa bebedeira, então, aconteceu uma coisa que como conseqüência, como já lhes disse, custou a vida de meus amigos. Vimos um sujeito andando na rua, como estávamos bêbados, paramos o carro e pegamos o homem que aparentava ter uns quarenta anos de idade. Agarramos ele e colocamos no porta-malas e fomos em direção à casa.

Quando chegamos, começamos a nos divertir, Fernando pegou seu rádio e os CDs de samba que tínhamos e colocou num volume bem alto. Então, fomos até o porta-malas, abrimos e tiramos o sujeito de lá, ele estava apavorado, mas a agonia dele nos dava alegria, jogamos ele no sofá e depois no chão, começamos a dar chutes nele, ouvíamos os gritos dele dizendo "parem, por favor, parem", mas quanto mais ele gritava, mais o espancávamos, então, quando finalmente paramos, Eduardo foi até a despensa e de lá trouxe um machado grande, que existia ali há muito tempo. Andersom pegou o sujeito (que ainda estava vivo e com o rosto manchado de sangue) e o colocou sobre a mesa, então, Fernando pegou o machado, levantou para o alto e numa forte tacada, decepou a cabeça do tal sujeito, a tacada foi tão forte que o machado ficou preso na mesa, e o chão, a mesa e o machado estavam sujos de sangue.

Eu peguei a cabeça e todos nós fomos para a cozinha, Eduardo viu uma armarinho e foi abrindo as gavetas para ver se encontrava alguma coisa, e achou um papel dobrado e sujo, desdobrou e leu em voz alta o que estava escrito na carta:

"Há muitos anos atrás neste mesmo local, habitava um praticante de magia negra, freqüentemente se encontrava com o próprio diabo, vendendo-lhe a alma. Num certo dia, esse homem que se chamava Tony Claversom, raptou um estudante e cortou-lhe a cabeça, mas, uns minutos depois o corpo se levantou e exterminou Claversom, arrebentando seu crânio e destroçando os pulmões; o cadáver fez isto apenas com as mãos e se movimentava sem a cabeça, depois o cadáver sumiu e nunca mais foi visto. O autor destes versos foi testemunha de tudo isto, não irei me identificar. Este acontecimento ocorreu no dia quatro de abril de 1792."

Achamos graça na narrativa que se sucedeu, tudo para nós não passava de piada, Eduardo jogou o papel num canto e nos sentamos nas cadeiras, peguei a cabeça do morto e comecei a brincar, mexendo a mandíbula, abrí-a bem e coloquei meus dedos lá dentro, então, de repente, a boca se fechou, cortando dois dedos meus da mão esquerda, soltei a cabeça gritando de dor, logo em seguida começamos a ouvir passos pesados se aproximando, nos viramos assustados e vimos algo que não pudemos acreditar, vimos o corpo se aproximando lentamente de nós. Pulei da cadeira, estávamos todos paralisados de espanto, nunca vimos nada igual, fui atrás da mesa tomado de medo. Andersom se aproximou do corpo, sem saber o que ia fazer, e tentou atacá-lo, mas a bizarra coisa se defendeu e com as mãos, começou a apertar a cabeça de meu amigo, que ficou gritando. Nós três ficamos apenas olhando, não conseguíamos nos mover, vimos a cabeça de Andersom ser esmagada pelas mãos do corpo.

Nunca tínhamos visto algo tão horrível, Fernando teve um súbito ódio que eu nunca vi nele e pulou para cima do corpo, mas a coisa parecia não sentir os golpes que eram desferidos por Fernando. Então, a criatura segurou o pescoço de meu amigo e numa força bruta pergurou o pescoço e arrancou a traquéia, diante dessa horrível cena corri para o corredor e vi Eduardo parado no mesmo lugar, ele estava aterrorizado e não conseguia se mexer; vi o corpo se aproximar dele, gritei para ele fugir mas parecia que ele não me ouvia, então, o corpo deu-lhe um soco que penetrou em seu corpo, arrancando-lhe os pulmões, e ficou segurando seu coração no alto e depois esmagou-o com suas próprias mãos. Desesperado, corri em direção à porta dos fundos, mas havia me esquecido que ela estava trancada, virei-me e vi o corpo se aproximando, então, me lembrei da janela que sempre estava aberta, pulei de qualquer jeito e corri até o carro, como Andersom havia deixado a chave ali, liguei e saí o mais rápido que pude.

Depois deste terrível acontecimento nunca mais voltei à casa, aquelas cenas horríveis não saem de minha mente, freqüentemente tenho pesadelos, nunca pensei que um dia eu estaria de frente com a morte, a morte sem cabeça.


Autor: Adriano Tulio